sábado, 3 de agosto de 2019

Perder

"Isso foi há muito tempo. Nadia, agora, está casada: casou-se, ou casaram-na, pouco importa, com o secretário da Câmara da Nobreza e tem três filhos. Jamais esqueceu o tempo em que íamos andar de trenó, quando o vento levava até ela palavras de amor: - Amo-a, Nadia. - É, no momento, a mais feliz recordação, a mais tocante, a mais bela de sua vida...
E eu, agora, mais amadurecido, não compreendo por que dizia tais palavras, por que me divertia com aquela brincadeira".

                                                                                 Estória Alegre. 

                                                                                                              Tchecov.


Eu sempre me pego em pensamentos melancólicos e lembrando-me de coisas que já não estão mais presentes. Mesmo assim, eu aprendi a seguir sem tornar as perdas como motivadores da desmotivação.
Acredito que uma das piores dores nas nossas vidas é por conta de termos que continuar transitivos e contínuos na vida enquanto que ao mesmo tempo vemos pessoas morrendo, outras tomando rumos distantes, se afastando de nós.
Muitos não sabem como lidar com a perca, com a partida de algo ou alguém que fora especial em sua vida, seja um animal, um objeto, um parente ou um companheiro, todos estamos fadados ao fato de que não podemos manter tudo perto de nós e poucos sabem como lidar com tudo isso.

Sobre aceitar o fim de um amor.

Ainda me recordo de alguns casos onde me disseram: "Tenho medo de vê-lo(a) com outra pessoa", "Eu ainda o amo", "ele(a) foi o amor da minha vida."

Ouvi várias vezes essas frases e eu sempre me perguntei o que ainda fazia com que as pessoas permanecessem em sentimentos por pessoas que escolheram por sair de suas vidas.
Acredito que seja uma pergunta sem uma resposta definida.
Mas as pessoas precisam saber que elas escolheram isso, e, isso não significa que que elas precisem acumular em si toda a culpa por tal acontecimento.
Tudo parte de escolhas.
O que realmente importa é a forma como lidamos com tudo isso. Cada pessoa descobre em si a formula, os mecanismos para não tornarem além de quem partiu, mas também o seu tempo de vida como coisas perdidas.
A vida caminha para frente. O mundo está indo para frente. Não há formula para retornarmos nossas vidas ao ponto em que tínhamos algo ou alguém connosco.


Sobre aceitar o fim de uma vida.


Quando eu escrevi acima que me pegava em pensamentos melancólicos, se dá por valer nesse ponto em questão.
A morte para mim é sempre algo aceitável e ao mesmo tempo é tratado de forma amargurada.
Milhares de anos como espécies e ainda não aprendemos a aceitar inteiramente o enigma da morte.

Hoje eu tenho uma nova visão da morte, menos perturbada, mais serena e passiva.
Aprendi a admirar a finitude humana, nossas limitações como espécie tanto na vida quanto na morte.
Há algum tempo eu reestabeleci em minha família o "valor dos mortos" por assim dizer.
Somos como muitos de famílias brasileiras com um passado fragmentado, cheio de pedaços faltando em nossas histórias, mas, eu voltei a falar mais sobre os mortos de minha família como forma de respeito, afeto e lição. Afinal, como dizem: "Alguém só morre quando nos esquecemos dela."
Todos que se foram nos deixaram com aprendizado, com heranças não só materiais.
Lidar com a morte de quem amamos é difícil. Recordar-se também, mas nós também precisamos aprender a lembrar daquilo que nos faz falta, nos traz tristeza e sem deixarmos de seguir adiante.
Tanto os vivos que escolhem sair de nossas vidas, quantos os mortos que partem sem nos dar mais um tempo de sua presença, todos nos deixam heranças, e, todos, até mesmo os que morreram ainda estão de alguma forma caminhando para algo, da forma e da maneira que for.

Para terminar, uma frase de Antoine Lavoisier: "Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma."

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